O que move em direção ao Outro é o desejo: o medo e o desejo pelo desconhecido. O encontro com o Outro me reinventa – em seus carinhos e violências. O corpo é veículo e suporte de reinvenção, pois é no corpo que habita o desejo, e toda a reinvenção parte do desejo.

Trabalho com histórias do Outro – eu também sou um Outro. Histórias enquanto modos de percepção de mundo. Recolho e lido com histórias contadas na pele, na palavra, nos sentidos, nos gestos e no silêncio. Peles e corpos narradores. Olho a pele como lugar da experiência, do encontro com o Outro, com o mundo, da exposição à vulnerabilidade, à alteridade.

Dos mapas procuro extrair a cidade como espaço encarnado. Cartografias que se inscrevem compondo o desenho dos corpos. Corpos que também se gravam nos espaços e no outro, em seus afetos e sensações. Corpos-desenhos, corpos-gravuras. O desenho do outro afeta o meu desenho.

Arquipélagos: das geografias dos corpos

A pele tornou-se o lugar da experiência sensível. Lugar do prazer do toque, dos póros abertos à alteridade, da vibração com o mundo. Lugar da dor, da exposição ao risco. Suporte para marcas do vivido. Passei a trabalhar com as cicatrizes enquanto desenhos próprios dos corpos, como uma mapoteca corporal. Recolho e coleciono cicatrizes do outro. Peço para pessoas que contornem suas marcas enquanto filmo suas mãos traçando os contornos, os mapas em suas peles, para depois bordar esses desenhos com linha branca sobre tecido branco.

Nas cicatrizes procuro a dor e a potência do outro. Na dor também existe potência. Procuro me aproximar da superfície dos corpos, da pele, lugar onde sentimos o mundo, o onde o mundo se imprime em nós. Destacar as cicatrizes não para expor a dor gratuitamente, mas para olhá-la com carinho e assombro. Percorrer esses mapas, geografias dos corpos, dos póros, em suas diferentes belezas e estranhezas.

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