A cidade revela temporalidades distintas. A opressão que se sente no espaço urbano influencia os modos de pensar daqueles que por ele transitam ou nele habitam. Hábitos  interferem e moldam os relacionamentos com o espaço que se ocupa. Esgotamento, esquecimento, conformação, excessos, aceleração, especulação são conceitos recorrentes quando se pensa a grande cidade urbanizada. Com as conquistas tecno-científicas, os homens atingem novas linhas de pensamento e novas formas de organizarem o espaço, conquistando liberdade em relação a antigas barreiras e impondo a si mesmos novas limitações, novas fronteiras, novos isolamentos, novas delimitações territoriais, construindo novas especializações para os lugares de habitação convívio e passagem.

Ocupado por construções diversas e atravessado por ruas avenidas viadutos passarelas e seus trânsitos e adensamentos, o tecido urbano espelha uma outra organicidade que já não se assemelha tanto àquela que pensávamos humana, e que se aproxima do comportamento dos insetos e seus agrupamentos em colônias.

O quanto podemos insistir em não aceitar apressadamente que o destino já está traçado, restando somente nos entregarmos à tristeza? É preciso não negar as feridas e os danos causados por uma urgência que parece esquecer que vivemos sobre um único e mesmo planeta, e não tomá-los por definitivos e irremediáveis, nos entregando a um torpor que acaba por abafar as oportunidades de atuação não somente reativa ou opositiva, mas diversificadora dessas formas opressivas de lidar com os espaços urbanos.

Se por um lado os fluxos de deslocamentos cotidianos refletem o condicionamento da própria dinâmica urbana, por outro revelam a capacidade humana de reinventar as relações com a cidade.  Um dos aspectos sobre o dinamismo urbano é que os deslocamentos que nele ocorrem produzem enunciações. São seus usuários que interferem diretamente  nos espaços que percorrem,  modificando-os. Os percursos, ainda que invisíveis aos olhos, criam espaços na cidade,assim, o ato de caminhar cria um sistema de enunciação que divulga e constitui as narrativas urbanas através de uma linguagem própria. É o que Michel de Certeau afirma quando diz que “Os jogos dos passos moldam espaços. Tecem lugares”.1

O ambiente da cidade apresenta um dinamismo que irradia sua potência de organismo vivo, e assim o sinto como lugar privilegiado para a arte. Caberia então ao artista que atua no meio urbano, acionar as relações entre seus usuários, a partir de suas próprias vivências cotidianas, e propor assim uma experiência estética ampliada?

¹.CERTEAU, Michel de. Caminhadas pela cidade. In: A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008, p.176.

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