…”Entre o visível e o invisível. A paisagem contemporânea é um vasto lugar de passagem.” [1]
Interferencias nas paisagens, nos caminhos cotidianos, imagens recorrentes, banais, capturas de instantes…meu olhar busca o corte preciso, o acaso, a cidade viva…

primeiras anotações..
Bia
quase dezembro… de 2009

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A cidade se apresenta para ser vivenciada e assim se revela como espaço de referência e reflexão para os mais variados acontecimentos; como pano de fundo para diversas falas. Dinâmica, irradia sua potência de organismo vivo, se tornando locus privilegiado para a arte. Mas a cidade também encobre o intumescimento das relações de vizinhança provocando isolamentos voluntários. O olhar para os contornos da cidade, com suas luzes sua gente, cheios e sons, me dividem entre o espaço “meu” e do “outro” e que também é nosso; entre o outro e o outro de mim mesma.

Da observação da vida urbana cotidiana em sua multiplicidade e de seus fluxos de deslocamentos; diante da complexidade das relações que ocorrem nos espaços públicos de circulação e posicionamento – onde a proximidade física revela um grande distanciamento e isolamento coletivo – procuro através de um gesto artístico provocar o aparecimento de uma coisa mínima como indicativa da potência de mudança que habita a vida. Operação que busca a participação do outro como parceria, num regime de troca que se institui no instante de um olhar que constitui um outro espaço, uma heterotopia. Para Foucault, as heterotopias são espaços que se revelam dentro e fora das instituições mesmas, que deslocam e questionam o que se apresenta como real na sociedade e que partem do conjunto de relações que ali se estabelecem e “suspendem o conjunto de relações”[2] que ali acontecem.

Jacqueline Siano

Novembro de 2009

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São lugares e cenas mais ou menos comuns da cidade, mas as imagens que vejo parecem sempre desvelar algo ainda não observado em sua ambivalência.  Caminho na fronteira entre o prazer e o caos de cada dia, entre ficar e passar, entre o real e o artificial, entre a participação e a  indiferença,  entre ser e não ser habitante da cidade,  habitante   de mim  mesma.

Ambivalente também sou eu, vivo nesse tempo de hoje. Não busco a beleza vazia das composições,  mas encontro força poética em um simples recorte do cotidiano, que me chega como descoberta e  evocação dos sentidos  da cidade.

Percebo que todos nós criamos formas de resistência, nós, os habitantes da cidade, nós os artistas.  Reagimos às subtrações  de significados, à solidão, às super dimensões, à massificação, à pressa constante, aos vazios, à indiferença, a despersonalização. Respondemos com atitudes que subvertem os roteiros,  deslocamos sentidos, criamos  imagens que não querem apenas a mera contemplação, mas a abertura para novos modos de ver, sentir e  pensar o mundo.

Há três instâncias desses modos de perceber a apreender a imagem da cidade.

Fora de nós vemos  escalas desproporcionais, direcionamentos (regras, fronteiras, guias), super densidades, fluxos velozes. Indiferença, demoras e ausências de todo o tipo. Por outro  lado,  há a cidade que se oferece ao lazer, à contemplação e à festa.

Em nós, a cidade provoca tanto  solidão, isolamento,  desligamento, alienação, medo, perda de controle (de tempo, de lugar, de atitudes, de pensamento), como a consciencia do outro  e  o desejo da  convivência.

Por fim, reagimos ou resistimos através do deslocamento de sentidos,  da  criação  de universos particulares (por introspecção, envolvimento com o outro, transgressão) ou  da  criação de universos coletivos, outros espaços , formas de convivencia e congraçamento.

Lídice Matos

Novembro de 2009

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Vendo a cidade como escultura.

As passagens são a arquitetura da cidade das imagens…Nem perto nem longe, nem passado nem presente…Mas entre uma coisa e outra. Entre o real e o imaginário, o figurativo e o abstrato, movimento e o repouso. Entre o visível e o invisível. A paisagem contemporânea é um vasto lugar de passagem.” [3]

A partir da captura de imagens das construções como esculturas que se impõem no espaço urbano e criam uma nova relação com ele, e da captura de imagens da paisagem que se impõem aos nossos olhos criando planos e massas, penso as diferentes relações provocadas por sua disponibilização na Internet.

Um olhar sobre a cidade em recortes, vendo as suas construções, seus relevos como objetos. Imagens, registros fotográficos desses acontecimentos no espaço. Fotos de edifícios, monumentos, elementos da natureza, acidentes geográficos. A escolha a partir  de uma investigação de formas, recortes, articulações provocadas pelas construções, mobiliário urbano e pela paisagem da cidade, seus morros, vegetação, solo.

Tânia Queiroz

1998/2009

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Entrelaçamentos entre Espaço Urbano, Ciberespaço, Comunicação e Design

A comunicação domina o espaço como um elemento na arquitetura e na paisagem (…) O símbolo domina o espaço. A arquitetura não é o suficiente. Uma vez que as relações espaciais são feitas mais por símbolos do que por formas, a arquitetura nessa paisagem se torma mais símbolo no espaço do que forma no espaço.” (Venturi, Brown e Izenour, 2003: 33-40).[4]

Encontradas em edificações ou em suportes físicos pela cidade, as mensagens aplicadas em fachadas (letreiros, placas, tipografia do edifício…) os banners que envelopam superfícies, – por tempo delimitado, traduzindo sua condição efêmera – e os prédios “comunicativos” (espaços cenográficos, formas simbólicas, espetaculares), hoje caracterizam-se como parte do furor imagético que nos cerca. A estas, somam-se fluxos, perceptíveis: orgânicos ou inorgânicos – gente, gases, cheiros, cores… – ou invisíveis: ondas de rádio, tv, celular, Internet, carregando informações que trafegam por redes e caminhos que desafiam o nosso entendimento.

Enquanto nos deslocamos pelas ruas carregadas de elementos visuais e sonoros, verificamos e-mails, escrevemos mensagens, nos orientamos por GPS ou fotografamos em dispositivos móveis, também utilizados para falar ao telefone, sua função original.

No espaço urbano, os suportes para transmissão de mensagens digitais (painéis, totens, mapas, quiosques…), muitas vezes interativos, somam-se a outros tantos elementos comunicacionais que nos cercam. Denis observa que a superabundância de informações disponíveis, continuamente crescente, gera sua condenação à insignificância, pelo espaço proporcional ínfimo que tem condições de ocupar. (Denis, 2000: 212)[5]

Convencionalmente, considera-se que a solução de um problema de sinalização, é a produção de ainda mais sinalização. Assim, em nossa cidade, a multiplicação desordenada de placas e outros suportes que são superpostos no tecido urbano – somando-se à arquitetura, mobiliário e equipamentos públicos e privados – , além de, muitas vezes, atravancar  as calçadas, prejudicando o fluxo de seus cidadãos, impossibilitam o discernimento das informações expostas. A hierarquia é desconsiderada, enquanto cada instituição “resolve” seu problema informacional ao seu modo, fincando seu poste nas calçadas. Não importa se há árvores ou outro obstáculo na frente das mensagens ou se esta é clara, eficiente, se consegue alcançar o cidadão.

Joy Till

Novembro de 2009

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Cotidiano | Registramos o cotidiano não apenas pela expressão da repetição, do habitual, do programado, mas, através das práticas cotidianas utilizadas como táticas de reinvenção do espaço da cidade, construindo a partir delas nossas próprias histórias. Essas histórias são tecidas a partir das experiências como o caminhar, o vagar, trabalhar, fazer compras, transportar. O ato de fazer, invisível, torna-se visível através das narrativas e mapeamentos criados a partir dos registros dessas práticas.

Mobilidade | Na era da mobilidade transitamos pela cidade através de redes materiais e imateriais. Os fluxos tornaram-se dominantes gerando uma organização urbana que se apresenta menos como uma forma e mais como um processo. Nesse contexto, criamos uma rede de conexões utilizando o telefone celular. As conexões se constroem a partir de acontecimentos e experiências em torno da cidade. Semanalmente, cada membro do grupo envia para os demais, por mensagem de texto de celular, uma palavra-chave, – um viés através do qual todos olham a cidade, levantando questões, fazendo associações, criando um banco de imagens e idéias que deverão compor narrativas e mapeamentos.

Mapeamentos | No espaço produzido pelos fluxos de pessoas, objetos e dados produzimos ações artísticas usando telefones celulares, fazendo registros, anotações urbanas em percursos, caminhadas e derivas vivenciando o cotidiano na cidade, criando mapeamentos pessoais. Vendo o mapa não apenas como um sistema de referências geográficas, mas como uma narrativa, uma forma de fazer ver, produzimos imagens nos cruzamentos de experiências, reflexões e imagens georreferenciadas e geoetiquetadas visando a formação de mapas pessoais que,  superpostos, deverão formar um mapa coletivo dos percursos e narrativas decorrentes do olhar de cada um dos participantes sobre a cidade e a vida cotidiana.

Giodana Holanda

Novembro de 2009

 

 

 


[1] Brissac Peixoto, N. Passagens da Imagem: Pintura, Fotografia, Cinema, Arquitetura. In: Parente, A. (org) Imagem Máquina– A era das tecnologias do virtual. São Paulo: Ed. 34, 1993.

[2] FOCAULT,Michel. Outros Espaços. In: Ditos e escritos, vol.3. Rio de Janeiro:Ed.Forense Universitária, 2004,411-422p.

[3] Brissac Peixoto, N. Passagens da Imagem: Pintura, Fotografia, Cinema, Arquitetura. In: Parente, A. (org) Imagem Máquina – A era das tecnologias do virtual. São Paulo: Ed. 34, 1993.

[4] VENTURI, Robert, BROWN, Denise Scott e IZENOUR, Steven. Aprendendo com Las Vegas. São Paulo: Cosac & Naify, 2003. 224 p.

[5] DENIS, Rafael Cardoso. Uma introdução a história do design. São Paulo: Edgar Blucher, 2000. 240 p.

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